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Fev 10BROKEN, PARTE II - O HOSPITAL

Por conta de priorizar outros gastos e por não ter controle das minhas correspondências, atrasei meu plano de saúde o suficiente para causar seu cancelamento. A esta altura, ao final de 2009, pensei: “- Outra hora vejo isso…o que de grave aconteceria a um jovem saudável e vacinado?” Deu-se que por teimosia ou ironia dos deuses, aconteceu o que foi citado no post anterior. A lição começou ali, longe de terminar.
Após o atendimento inicial, correu-se atrás da cirurgia. Descartou-se de cara a Unimed - não dava pra pagar retroativo e operar a tempo - e o Metropolitano - que só opera quem é socorrido por lá. Meu prazo era 7 dias, quando o osso ainda estaria “no ponto” para o procedimento. Através de contatos dos jornalistas da casa, finalmente consegui uma data na Clínica dos Acidentados Maradei, 7 dias após o fatídico, em uma segunda-feira. Nesse dia vivi a primeira experiência de um ser humano atendido pelo Sistema Único de Saúde.
Cheguei cedo, 7:30, em jejum. De mochila arrumada com roupas, livro, lanchinhos pra depois da cirurgia e palavra cruzada. Aguardei na recepção até quase 9:00 e enfim fui chamado. Minha mãe não pode ir comigo à recepção da parte interna, pois já sou maior de 18 e não tinha dificuldades de locomoção e fala. As pessoas desses ambientes parecem carregar uma tensão diferente, assim como uma frieza a certas situações. Ao meu lado um garotinho com a perna inteira engessada, todo machucado, chorava querendo ir pra casa. O médico se dirigia a ele com a mãe, dizendo “- já vou atendê-los”, sem o menor traço de comoção.
No consultório, a calha foi retirada pela primeira vez após o acidente, com uma certa brutalidade do médico. O braço tremia, como se os músculos não conseguissem coordenar qualquer movimento. Nessas horas aprende-se a valorizar os ossos - sem eles somos pesados como uma peça de carne no açougue. Após examinar e cogitar diferentes procedimentos possíveis, ouvi do médico: “- Não vou poder te operar hoje, tá?”. Não sei se fiquei chateado por mais um dia sem solução ou feliz por poder tomar café da manhã.
Terça-feira, 19/01. Chego novamente em jejum para enfim ser operado. Fui enviado lá pra cima na área de leitos, sem direito a acompanhante. Nada de quarto com TV e banheiro. Minha cama ficava no 5º andar, enfermaria 5, leito 3. Prazer, eu era o 553. Para todos os enfermeiros e médicos, eu era um número e uma fratura: “- 553, completa oblíqua de úmero”.
Minha visão inicial da Enfermaria foi a mais bisonha possível: 2 camas ocupadas das 4, um agente prisional em uma cadeira e a outra cama com dois pares de algemas de mão e pé. Sentei na minha cama e tentei ler um pouco, ignorando a fome e a sensação estranha que aquele ambiente me transmitia à primeira vista…Em breve conto o momento que comecei a fazer amigos por lá…
