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Mai 10BROKEN, PARTE IV - OS COMPANHEIROS
Voltando aos episódios de “BROKEN”…Como o assunto já tá ficando antigo, resolvi compilar logo de uma vez neste post a apresentação dos meus companheiros de enfermaria. Como relatei anteriormente, não fiquei em quarto isolado…tampouco tinha direito a acompanhante. Só podia receber uma visita, masculina, e num período de 1h (de 15h às 16h). Isso fez com que tivesse de conhecer novas pessoas nas 24h que passei lá. Cada enfermaria tinha 4 leitos, abaixo os outros integrantes do 550:
Este foi o primeiro que conheci. A primeira cena que vi ao entrar: o meu leito ainda sendo arrumado pelo enfermeiro, um cara deitado em uma cama, um algemado em outra e um agente prisional fanfarrão sentado ao lado. Fiquei deitado na minha, meio assustado com aquilo. Minutos depois o Rafael chegou. Quebrou a clavícula em um Re x Pa de solteiros e casados em Barcarena. Estavamos juntos contando os minutos para ir pra sala de cirurgia.
Às 15h me chamaram, e nada de chamarem ele. Quando eu estava deixando o bloco cirúrgico, ouvi algo como “o rapaz de Barcarena só amanhã viu?”. Aí eu dizia “pergunta, Rafael! Vais ficar em jejum até que horas?”. O cara ficou sem comer até umas 17h…quando realmente ele percebeu que não seria operado aquele dia. Ficou pro dia seguinte…quando eu tive alta, lá estava ele para iniciar mais um dia em jejum…

Esse era o bendito algemado. Confesso que fiquei bastante receoso, tive preconceito. Ficava mais ouvindo o que ele e o agente diziam…tentando pescar alguma coisa…Isaías foi o primeiro a ir pra faca, umas 10h. Até então não havia trocado uma palavra com ele. Depois que ele retornou, outro agente veio trocar de turno, vários médicos vinham para discutir a situação do braço dele….foi numa dessas que comecei a puxar assunto.
Foi preso por tentativa de homicídio. Um cara o ameaçou de morte e “antes que viesse me apagar, tentei pegar ele”, segundo o próprio. Fugiu, passou uns dias foragido, e daí então foi pego em uma festa de aparelhagem. A truculência de um dos policiais resultou no cotovelo luxado que, após vários dias sem os cuidados especiais, nem a cirurgia dava mais jeito, sob risco de perder os movimentos da mão. Ficaria Isaías, até onde eu sei, com o cotovelo duro pra sempre. “Saindo do hospital volto pra cadeia. Mas já saio de lá, e vou buscar uma indenização”. Será que ele consegue?

O Romero desceu na mesma hora que eu pro bloco cirúrgico. Estava com a testa bastante inchada, pontos na boca, olho roxo…o braço então, nem se fala. Quebrou em três pedaços, tava feio o negócio pra ele. Acidente de moto…tava fazendo graça na frente de casa, acelerando pra roncar o motor…numa dessas a moto foi e ele deu de encontro no muro, sem capacete nem nada. Quando saí da minha sala de operação, ele ainda estava em procedimento cirúrgico. Foi o único que encontrei depois desse dia. Em um dos meus retornos ele estava lá, já com o rosto bem melhor, mas o braço…”ainda não colou direito”, disse ele.
A noite lá no hospital foi bem estranha. Malmente se via enfermeiros, apenas uma cambada de marmanjo arrebentados, uns gemiam de dor - eu fui um deles. A cirurgia exige muito de nossa estrutura física, é exercida uma força e peso descomunais, e quando passa o efeito do anestésico a dor vem. Quase não dormi. Nesse vai e vem pelos corredores, quantas histórias, quantas realidades diferentes. O que quebrei foi o braço, mas tenho certeza que minha cabeça foi que se abriu pra muita coisa.









