30
Ago 10

PESSOAS

Gosto muito de pessoas. Cheguei a essa constatação ao perceber como reparo demais em cada rosto na rua e como me agonio de estar em multidões, como se ali tivesse informação visual demais, ou no popular, “gente demais pra eu olhar”. Meu caso não é simplesmente reparar belezas ou defeitos, e sim entender a riqueza de detalhes ou histórias que cada traço pode me contar.

Esse exercício tem um muito de preconceito. Vamos chamar de “pré-concepção”, para não soar tão pejorativo. Buscar entender ou avaliar alguém que nunca vimos na vida envolve um boa dose disso, além de imaginação em decodificar o que os estímulos visuais captam e de que forma decodificar isso em conceitos. A pessoa pode ter “cara de que não saber lidar com finanças”, um andar de “me invejem, sou feliz no meu casamento” ou uma “pinta de ser bom desportista”. Nossa matéria sempre tem muito a dizer, e traçar esses parâmetros é um divertido jogo de adivinhação quando se trata de uma pessoa que acabamos de conhecer (e teremos a oportunidade de conhecê-la melhor). Podemos constatar os palpites, ou ter gratas surpresas com os chutes furados.

É bom também ouvir histórias. Essas de interior, de pessoas simples mas que tem mais domínio da lábia do que muita gente letrada e estudada. Que sabe como falar, como envolver um enredo do início ao fim. Gosto de uma boa conversa, e de ouvir uma boa história. É bom sentir que pode aprender com as pessoas, independente do grau de instrução, idade, ou o quanto ela é ou vai ser relevante na nossa vida. Tem palavras que em um único momento ficarão gravadas pelo resto da existência.

Talvez por tudo isso agora eu entenda meu receio da morte. Não a minha…pois encerra minha existência aqui e pronto. Mas enterrar alguém representa perder definitivamente a presença, o olhar, os gestos, as histórias…incomoda demais saber que acabou. Estou lidando com isso nesse momento e tudo o que penso é “vamos fazer um filme?”. É uma boa registrar pequenos momentos para mostrar como em 2010 uma pessoa foi um dia…No mundo somos bilhões, mas cada um que vai leva uma chuvinha de lágrimas. Deixar cenas gravadas é um belo legado para gerações que podem nem vir a nos conhecer.

Obs: Desenhos adaptados de uma campanha criada para a Loja Colabora.

12
Ago 10

DUAS RODAS

Em fevereiro de 2008 comprei uma moto. Sem saber andar mesmo. Decidi que era mais fácil aprender tendo meu próprio veículo, que passou 2 meses na garagem até eu criar coragem para as primeiras voltas no quarteirão. Só fui rodar na cidade mesmo em junho, e no primeiro dia que fui pro Libra nela um buraco “me acertou”. Problemas e dificuldades à parte, a vida em duas rodas me fascinou.

Não sou um motoqueiro, na essência da palavra. Minha motoca é uma Garini 125 cilindradas, automática. Nem marcha eu passo. Meu caso com as motos é a praticidade no deslocamento, as fugas do trânsito e economia de combustível. As subidas na calçada, os atalhos, contramãos furtivas…fazem parte da adrenalina de quem dirige moto. O que pra mim foi uma opção pela falta de condições financeiras de bancar um carro, hoje é uma relação afetiva.

Nesse exato momento a vermelhinha tá na oficina. Problemas no pistão, biela e camisa, que tô esperando vir por SEDEX (problemas de escolher um veículo importado). Falando assim parece que entendo pra caramba…mas não sei lhufas. Nem sei em que pescoço veste essa tal camisa. Até tenho os “Moto´s day” - sábados que tiro para passar o dia na oficina, ajustando, regulando, mando lavar - mas ainda não aprendi grande coisa. Confesso que depois desse problema - e de doer um bocadinho no bolso, e me fazer esperar vários dias à pé - vou retomar com tudo o aprendizado na arte da mecânica. Conhecer as peças, saber verificar pequenos problemas, levar à revisão na hora certa…afinal, dizem que o veículo é a extensão do corpo do condutor…a moto então representa ele próprio, tal é a simbiose de quem se habilita a ver o mundo nesta ótica.

18
Jul 10

E UM CICLO SE FECHA

Quem acompanhou aqui pelo blog, 2 meses atrás perdi minha avó. E ainda em meio a esse turbilhão de tristeza e cuidados com a situação (o vovô precisava de muitos deles), o velho “Mago” resolveu reencontrar sua companheira. Para nós, mais um susto. Novamente ter que passar por todos os procedimentos sofridos com funerária, velório e enterro. Para eles dois, com certeza a paz. E essa aura me contagiou, espero poder passar essa força para minha família, em meio a esse súbito desaparecimento dos dois elos do topo da árvore dos Da Silva Magalhães.

Vejo os tios teimosos e rancorosos amolecendo seus corações, retomando contato, abrindo seus corações e voltando a ter fé. Fé essa minha que também andava perdida…ando buscando caminhos que tenho identificação e me trazem paz. Me vejo rezando, agradecendo coisas simples, como a água que cai do chuveiro, o alimento que como e o novo dia em que abro meus olhos. Penso que maravilhosa é a possibilidade de estar aqui, e qual é o poder que temos de mudar o mundo que nos rodeia, ajudando quem passa por nosso caminho.

Na hora em que o caixão do vovô estava descendo e todos contemplavam o fim de sua matéria, olhei para o céu. Não sei se por força da imaginação ou por ironia de Deus, vi uma ponta de nuvem formar a silheta do velho Williams, com um largo sorriso - que há muito ele já não podia dar. Sorri. Sozinho, não quis mostrar pra ninguem e ser chamado de maluco. Mas senti uma tranquilidade de que nós estamos aqui enquanto pudermos fazer coisas boas, ensinar e aprender. A partir daí, quando isso termina, temos a recompensa eterna. Feliz vida nova ao vovô Williams e à vovó Myriam. A nós, sobram ensinamentos, lembranças e saudades.

19
Jun 10

F.E.02 - COMO REALIZAR UMA BOA NEGOCIAÇÃO, POR ANTÔNIO BARROS

A segunda boa palestra que assisti na Feira do Empreendedor diz respeito a como realizar uma negociação de sucesso. Mas afinal, será que devemos enxergar como negociantes apenas aquelas pessoas que lidam com transações milionárias? Negociar, na verdade, é uma realidade da vida, pois fazemos isso a todo momento, utilizando informações e poder para enfrentar comportamentos, persuadindo o interlocutor em troca de concessões. Sim, é um jogo de poder, em que a cada jogada tentamos diminuir o poder do outro - uma vez que devemos enxergar nosso objetivo em primeiro lugar. Esse poder é subjetivo e depende da percepção e postura da pessoa perante uma negociação iminente.

Em sua fala, Antônio levantou fatores cruciais que conferem poder a um negociador - motivação, vontade, auto-estima, auto-conhecimento, criatividade, competência, compromisso, capacitação, aparência, tom de voz, gestos, postura…poder-se-ia discorrer várias linhas sobre cada um desses itens, mas o fundamental é perceber a correlação entre eles no sentido de dominar a situação e aproximar o interlocutor, puxando para si a situação, não sendo o primeiro a ceder e, no fim de tudo, chegar em uma conclusão do “ganha-ganha” - onde ambos sentem-se contemplados, valorizados e satisfeitos com o desfecho. Saber ouvir é fundamental em vários âmbitos da vida. Na negociação, então, é crucial: tudo que alimente de informações sobre o cliente será ouro na hora de idealizar as transações, o que também conferirá maior poder de barganha.

Outro fator interessante levantado na palestra é que o negociador não é um sujeito padrão com todos os atributos citados acima. Seguindo a divisão apontada na palestra, existem 4 tipos básicos de negociadores, divididos em pares:

Negociador Informal
- Inovador: é criativo em suas sugestões, sempre disposto a uma negociação diferente e nova;
- Apoiador: suporta as decisões, atuando como se estivesse “do lado” de seu interlocutor;

Negociador Formal
- Dominador: busca impor suas decisões, dificilmente refresca, fazendo o estilo “pegar ou largar”;
- Analítico: ouve bastante e procura pensar em todas as possibilidades antes de propor algo.

Dentro desses parâmetros de características e análises, podemos utilizar a teoria do iceberg dos negociadores (não achei dados concretos de seu autor) para entender de fato que um processo de negociação envolve atributos aparentes e outros ’submersos’, mas que devemos ter noção que eles existem, conforme o gráfico abaixo:

Avaliando o que está fora d´água percebemos que é o nível das coisas que podem ser percebidas e as que querem ser expostas. Tudo que é de mais absoluto e real fica escondido. O grande trunfo do negociador seria perceber onde a outra parte de fato quer chegar na negociação, elevar seu poder e a partir daí fazer os movimentos mais precisos, em busca de valorar o resultado da negociação.

Uma diferença simples e interessante mas que nem sempre paramos pra pensar é entre ‘custo’ e ‘valor’. O ‘custo’ representa o que eu sei e digo que meu produto ou serviço vale. O ‘valor’ é o que cliente percebe que aquilo potencialmente custaria. Frequentemente fazemos inconscientemente o peso entre ‘custo’ e ‘valor’, estando o custo de algo mais aceitável à medida que a percepção de valor cresce. Mais um trunfo para o negociador: dentro dos processos, fazer o interlocutor elevar o padrão de valor que ele atribuiu a determinada coisa. Frases como “olhe melhor! veja que acabamento de primeira!”, que permite reavaliação e ganho de poder.

Analisando tudo o que foi dito dá pra pensar que de fato a todo momento estamos buscando nos impor e aumentar nosso poder. O foco da palestra foi essencialmente voltado ao mundo dos negócios, mas me acendeu o alerta para perceber que é um comportamento cotidiano…negociamos para convencer a família a trocar de canal, a(o) namorada(o) na hora de escolher o cardápio, a turma a escolher onde tomar uma cerveja. Ao ser humano foi dado os mecanismos de linguagem e expressão que podem minimizar a sensação de que o outro está sendo persuadido, mas no fundo estamos diariamente nos posicionando e impondo aos outros estilo, comportamento e ideias. Contanto que a moral (abstrato, que rege o comportamento humano) obedeça limites éticos (concreto, que avalia socialmente esse comportamento), creio que negociar está mesmo no sangue e precisamos dela para exercer lideranças, ter responsabilidades e compromissos com o mundo.

12
Jun 10

F.E. 01 - COMÉRCIO JUSTO, POR NAJI HARB


Como forma de dar vazão ao conteúdo das palestras que assisti na Feira do Empreendedor (ocorrida em Belém no fim de maio), decidi fazer resumos e dividir por aqui um pouco do que aprendi nesses 5 dias. É bom desmistificar a ideia de que temos que aprender somente coisas da área de atuação. Foi legal sentar na platéia e ouvir atentamente conhecimentos totalmente novos.

Escolhi essa palestra por julgar interessante entender alguns mecanismos de transações comerciais. Gostei de identificar esse tipo de iniciativa e perceber aplicabilidade em outros mercados. Inclusive, a pergunta que fiz foi “existe a possibilidade de implementar ideais de comércio justo na prestação de serviços?” Pela lógica do sistema, sim, como vemos a seguir.

O ideal de Comércio Justo está em estabalecer preços mínimos para determinada mercadoria baseado em custos de produção e logística, levando em conta fatores de risco (possíveis prejuízos, seguro, entresafra, perdas na produção, entre outros). É uma medida que favorece o produtor em detrimento de atravessadores e demais revendedores que elevam o preço sem estimular melhorias de qualidade. Geralmente é difícil para pequenos produtores que façam investimentos em tecnologias de extração, cultivo, produção ou manufatura, portanto é fundamental para este processo que se associem e padronizem as etapas, a fim de atender demandas maiores e competir com os grandes com produtos que tem garantia de origem.

As associações são democráticas e gerenciam as possibilidades e prospecção de novos mercados, lobbys e assinatura de contratos. Tem por dever agir com transparência e reinvestir na comunidade a qual pertence, seja na construção de praças, quadras poliesportivas, escolas, etc. Certificar-se pelo selo fairtrade exige enquadrar-se em 220 (!) critérios, que vão desde treinamentos, estudos de mercado, plano de marketing, adaptação de produtos…tudo no maior rigor e dentro de princípios justos, éticos e de qualidade.

Para pequenos produtores, a certificação em órgão especializado vai além de um simples selo que lhe renderá o lucro justo: alimenta-se autoestima e autoconfiança, faz com que se especializem em negociações, entendam mais do mercado que atendem e expandam horizontes. E como isso pode se aplicar em outros mundos, o que se tira de lição deste exemplo? A principal talvez seja a percepção de que costumamos consumir marcas e temos, nessa dinâmica, pago mais pelo valor atribuído a elas do que por sua qualidade latente.

O critério de opção por qualidade tem sido minado pelo deslocamento dos referenciais, onde experimenta-se e prioriza-se o consumo das ideias e conceitos, em detrimento dos valores reais, de uso e beneficio, propocionados por determinado produto ou serviço. O ideal de comércio justo - que hoje prolifera e expande mercado no segmento de produtos alimentícios - se encaixaria perfeitamente se transferido para as dinamicas comerciais de confecções, eletroeletrônicos, veículos…e, por que não, de serviços? Seria bom saber o que e porque paga-se determinado preço pela hospedagem em um hotel, a quantia destinada ao advogado ou o valor do orçamento cobrado por um publicitário. Não que todos os prestadores de serviço sirvam a mesma espiga de milho, mas para que o próprio cliente saiba reconhecer quando o lhe servirem uma canjica.

25
Mai 10

BROKEN, PARTE IV - OS COMPANHEIROS

Voltando aos episódios de “BROKEN”…Como o assunto já tá ficando antigo, resolvi compilar logo de uma vez neste post a apresentação dos meus companheiros de enfermaria. Como relatei anteriormente, não fiquei em quarto isolado…tampouco tinha direito a acompanhante. Só podia receber uma visita, masculina, e num período de 1h (de 15h às 16h). Isso fez com que tivesse de conhecer novas pessoas nas 24h que passei lá. Cada enfermaria tinha 4 leitos, abaixo os outros integrantes do 550:

Este foi o primeiro que conheci. A primeira cena que vi ao entrar: o meu leito ainda sendo arrumado pelo enfermeiro, um cara deitado em uma cama, um algemado em outra e um agente prisional fanfarrão sentado ao lado. Fiquei deitado na minha, meio assustado com aquilo. Minutos depois o Rafael chegou. Quebrou a clavícula em um Re x Pa de solteiros e casados em Barcarena. Estavamos juntos contando os minutos para ir pra sala de cirurgia.

Às 15h me chamaram, e nada de chamarem ele. Quando eu estava deixando o bloco cirúrgico, ouvi algo como “o rapaz de Barcarena só amanhã viu?”. Aí eu dizia “pergunta, Rafael! Vais ficar em jejum até que horas?”. O cara ficou sem comer até umas 17h…quando realmente ele percebeu que não seria operado aquele dia. Ficou pro dia seguinte…quando eu tive alta, lá estava ele para iniciar mais um dia em jejum…

Esse era o bendito algemado. Confesso que fiquei bastante receoso, tive preconceito. Ficava mais ouvindo o que ele e o agente diziam…tentando pescar alguma coisa…Isaías foi o primeiro a ir pra faca, umas 10h. Até então não havia trocado uma palavra com ele. Depois que ele retornou, outro agente veio trocar de turno, vários médicos vinham para discutir a situação do braço dele….foi numa dessas que comecei a puxar assunto.

Foi preso por tentativa de homicídio. Um cara o ameaçou de morte e “antes que viesse me apagar, tentei pegar ele”, segundo o próprio. Fugiu, passou uns dias foragido, e daí então foi pego em uma festa de aparelhagem. A truculência de um dos policiais resultou no cotovelo luxado que, após vários dias sem os cuidados especiais, nem a cirurgia dava mais jeito, sob risco de perder os movimentos da mão. Ficaria Isaías, até onde eu sei, com o cotovelo duro pra sempre. “Saindo do hospital volto pra cadeia. Mas já saio de lá, e vou buscar uma indenização”. Será que ele consegue?

O Romero desceu na mesma hora que eu pro bloco cirúrgico. Estava com a testa bastante inchada, pontos na boca, olho roxo…o braço então, nem se fala. Quebrou em três pedaços, tava feio o negócio pra ele. Acidente de moto…tava fazendo graça na frente de casa, acelerando pra roncar o motor…numa dessas a moto foi e ele deu de encontro no muro, sem capacete nem nada. Quando saí da minha sala de operação, ele ainda estava em procedimento cirúrgico. Foi o único que encontrei depois desse dia. Em um dos meus retornos ele estava lá, já com o rosto bem melhor, mas o braço…”ainda não colou direito”, disse ele.

A noite lá no hospital foi bem estranha. Malmente se via enfermeiros, apenas uma cambada de marmanjo arrebentados, uns gemiam de dor - eu fui um deles. A cirurgia exige muito de nossa estrutura física, é exercida uma força e peso descomunais, e quando passa o efeito do anestésico a dor vem. Quase não dormi. Nesse vai e vem pelos corredores, quantas histórias, quantas realidades diferentes. O que quebrei foi o braço, mas tenho certeza que minha cabeça foi que se abriu pra muita coisa.

13
Mai 10

TRISTE RETORNO

Depois de um longo (pra mim) período de inatividade, o Valete está de volta. Infelizmente com a notícia de que minha avó se foi. Tive a honra de fazer essa homenagem para as camisetas que vestiram primos, tios, avô, pai, mãe e amigos. Beijo vó! Vá em paz.

Logo mais retorno com as últimas novidades do braço. Obrigado aos que sentiram falta do blog. :)

20
Mar 10

BROKEN, PARTE III - A CIRURGIA

Um pequeno parentese na narrativa sobre a estadia no Hospital para falar do procedimento cirúrgico em si. Na volta, apresentarei um a um meus companheiros de jornada; por ora, comentários da cirurgia, a segunda no período de um ano.

Esperei em jejum até às 15h (!!!), quando finalmente fui chamado para a ante-sala do Centro Cirúrgico. O período de 15 às 16h é o único horário diário de visitas, e só permite-se uma pessoa, do mesmo sexo. Meu pai me encontrou nessa ante-sala e deu pra falar rápido e dar o último abraço antes de entrar. Lá da enfermaria, somos chamados em dupla para o 1ºandar. Desceu comigo o Romero do 531 - que será melhor apresentado em um post oportuno. Cada um aguardou um breve instante até que cada um foi chamado para uma das salas.

A enfermaria dava alguns sinais de um local mal cuidado, mas o bloco cirúrgico era o completo oposto. Bem equipado e moderno, o ambiente me tranquilizou. Deitei na cama fria, aluguei os anestesistas com algumas dúvidas, tentando quebrar o gelo. Perguntei sobre o procedimento em si, duração, pós-operatório…logo percebi a hora de aquietar e dar início aos trabalhos…

A anestesia não é geral, é local. Uma agulha é enfiada no pescoço para paralisar completamente o braço. Era necessária minha interação - após a agulhada, eu deveria dizer a palavra ‘choque’, quando sentisse um ‘choquinho’ formigar meu braço. O impacto é muito intenso, como uma descarga…em segundos, eu já estava “choquechoquechoquechoque”…o procedimento se repetiu por três vezes, até o braço amortecer por completo.

A partir daí, sessão “tortura”: uma espécie de tenda isolava o braço do meu rosto, mas pelo monitor pude ver o procedimento. Uma espécie de furadeira (!!!), com direito a barulho e tudo, atravessou internamente os dois pedaços separados do meu osso. Isso para abrir caminho para a haste de aço inox que hoje habita meu tutano, até segunda ordem. Algumas marteladas pra entrar de vez e pronto! Não senti dor, apenas o impato da furada e marteladas.

Só tive fome umas 3h depois da cirurgia. Tomei sopa fria e comi biscoitos que o papai me levou. A dormência do braço durou umas 5, 6h, e logo após uma dor absurda pelo desgaste do procedimento - a única dor que de fato senti todo esse tempo. Uma noite e algumas horas depois, estava em casa. Extremamente desgastado dessa saga.

26
Fev 10

BROKEN, PARTE II - O HOSPITAL

Por conta de priorizar outros gastos e por não ter controle das minhas correspondências, atrasei meu plano de saúde o suficiente para causar seu cancelamento. A esta altura, ao final de 2009, pensei: “- Outra hora vejo isso…o que de grave aconteceria a um jovem saudável e vacinado?” Deu-se que por teimosia ou ironia dos deuses, aconteceu o que foi citado no post anterior. A lição começou ali, longe de terminar.

Após o atendimento inicial, correu-se atrás da cirurgia. Descartou-se de cara a Unimed - não dava pra pagar retroativo e operar a tempo - e o Metropolitano - que só opera quem é socorrido por lá. Meu prazo era 7 dias, quando o osso ainda estaria “no ponto” para o procedimento. Através de contatos dos jornalistas da casa, finalmente consegui uma data na Clínica dos Acidentados Maradei, 7 dias após o fatídico, em uma segunda-feira. Nesse dia vivi a primeira experiência de um ser humano atendido pelo Sistema Único de Saúde.

Cheguei cedo, 7:30, em jejum. De mochila arrumada com roupas, livro, lanchinhos pra depois da cirurgia e palavra cruzada. Aguardei na recepção até quase 9:00 e enfim fui chamado. Minha mãe não pode ir comigo à recepção da parte interna, pois já sou maior de 18 e não tinha dificuldades de locomoção e fala. As pessoas desses ambientes parecem carregar uma tensão diferente, assim como uma frieza a certas situações. Ao meu lado um garotinho com a perna inteira engessada, todo machucado, chorava querendo ir pra casa. O médico se dirigia a ele com a mãe, dizendo “- já vou atendê-los”, sem o menor traço de comoção.

No consultório, a calha foi retirada pela primeira vez após o acidente, com uma certa brutalidade do médico. O braço tremia, como se os músculos não conseguissem coordenar qualquer movimento. Nessas horas aprende-se a valorizar os ossos - sem eles somos pesados como uma peça de carne no açougue. Após examinar e cogitar diferentes procedimentos possíveis, ouvi do médico: “- Não vou poder te operar hoje, tá?”. Não sei se fiquei chateado por mais um dia sem solução ou feliz por poder tomar café da manhã.

Terça-feira, 19/01. Chego novamente em jejum para enfim ser operado. Fui enviado lá pra cima na área de leitos, sem direito a acompanhante. Nada de quarto com TV e banheiro. Minha cama ficava no 5º andar, enfermaria 5, leito 3. Prazer, eu era o 553. Para todos os enfermeiros e médicos, eu era um número e uma fratura: “- 553, completa oblíqua de úmero”.

Minha visão inicial da Enfermaria foi a mais bisonha possível: 2 camas ocupadas das 4, um agente prisional em uma cadeira e a outra cama com dois pares de algemas de mão e pé. Sentei na minha cama e tentei ler um pouco, ignorando a fome e a sensação estranha que aquele ambiente me transmitia à primeira vista…Em breve conto o momento que comecei a fazer amigos por lá…

16
Fev 10

BROKEN - PARTE I, O ACIDENTE

Com a virada do ano, é comum que peçamos amor, dinheiro, saúde e outras coisas boas. Coincidentemente os dois últimos começos de ano me reservaram surpresas desagradáveis - ou como costumo chamar, lições de vida. Jogo bola às segundas e quartas há uns 6 meses e na segunda-feira 11 de janeiro, quebrei o braço. O máximo que já me havia acontecido em uma partida de futebol era uma torção ou fissura. Essa situação nova me trouxe medo e incertezas inumeráveis com o corpo quente do jogo e a mente tensa aguardando a ambulância.

Foi um lance rápido: bola esticada na lateral, e eu já havia perdido um gol em um lance anterior semelhante. Corri o máximo que pude, com a tradicional raça que tenho em campo. O corpo com velocidade excessiva e a proximidade do muro provocaram um acidente que para a maioria que o ouve, permanece inexplicável. O braço chocou-se contra o muro e fez um efeito alavanca que provocou fratura completa dé úmero.

Não doeu. Ver meu braço pendurado e torcido de maneira impossível pela estrutura óssea me causou grande choque. Com coragem e reflexo, coloquei o braço no lugar e gritei por socorro. Todo meu desespero não era dor, era o pensar nos acontecimentos que sucederiam, no meu trabalho, na moto…30 minutos se passaram e a ambulância chegou. Depois disso, permaneci tranquilo a grande maioria dos dias até hoje. Com plano de saúde atrasado, contei com apoio da tia do Duque na Unimed BR, que me atendeu prontamente. Fratura confirmada, era a hora de correr para garantir a cirurgia. Nesse meio tempo, agradeço o apoio incondicional de todos do Libra - em especial o Mariano, Duque e Robson - que até segurou meu braço partido em dois quando cansei; aos amigos que ligaram preocupados e visitaram sempre que possível; aos meus pais e irmão, que mesmo emocionados e preocupados fizeram de tudo para conseguir as consultas e cirurgia; e em especial a Yza, que acima da compreensão e apoio de namorada até no banho dos primeiros - e mais difíceis - dias me ajudou.

Brevemente as partes II e III, com a incursão ao hospital e detalhes (escabrosos!) da cirurgia.


Copyright © 2010 Valete de Copas
Desenvolvido por LibraDesign, rodando WordPress.